Biografia de Bonga




BONGA (José Adelino Barceló de Carvalho) (n. Porto de Kipiri, Angola, 5 Set. 1942). Cantor, autor de letras e percussionista angolano radicado em Portugal.

É um dos mais destacados intérpretes da música angolana internacionalmente e o seu principal divulgador no país.

Durante a infância acompanhou, enquanto percussionista, o seu pai, Pedro Moreira de Carvalho, um interessado na concertina abordada de acordo com a tradição da rebita da região de Luanda.

Cresceu no ambiente dos musseques de Luanda, os bairros periféricos e pobres da cidade, exclusivamente habitados pela população angolana negra, onde a música, a oralidade, a dança e o desporto eram indissociáveis e articulavam formas de resistência anticolonial.

A partir de finais da década de 50 tocou percussões em grupos como Os Ilundos, Kimbandas do Ritmo e Kissueia, que procuravam valorizar a cultura expressiva kimbundu por oposição aos valores e práticas culturais promovidos pela governação colonial. Em paralelo, a participação em competições desportivas opondo jovens dos bairros de Luanda, tornaram-no num atleta destacado. Foi atleta do São Paulo do Bairro Operário e do Clube Atlético de Luanda e recordista dos 200 e 400 metros corrida em Angola.

Mudou-se para a então metrópole em 1966 conjuntamente com o atleta e músico Rui Mingas para praticar atletismo em representação do Sport Lisboa e Benfica e da selecção nacional de Portugal.

Tornou-se músico acompanhante de intérpretes angolanos que passavam pela metrópole (Elias Diá Kimuezo) ou que nela desenvolviam uma carreira (*Duo Ouro Negro, Eleutério Sanches, Lilly Tchiumba, Teta Lando, Vum Vum).

O crescente envolvimento com a luta anti-colonial levou-o a exilar-se em Roterdão, na Holanda, em 1972, junto da comunidade africana, sobretudo cabo-verdiana, aí residente.

Nesse ano gravou o seu primeiro fonograma, Bonga 72, acompanhado pelo angolano Mário Rui Silva e pelo cabo-verdiano Humbertona (Humberto Bettencourt), ambos violistas. A gravação apresentava um repertório assente num acompanhamento de violas e percussão, e em textos de conteúdo político, interpretados com uma forte carga dramática. Estas características expressivas estabeleceram os contornos do seu repertório gravado durante a década de 70.

O impacte do fonograma em Angola e em outros países africanos de expressão portuguesa, onde circulava clandestinamente com capas de outros fonogramas, incentivou-o a optar definitivamente por uma carreira musical.

Em 1973 mudou-se para a Bélgica e Alemanha, onde viveu em trânsito até 1977, gravando Angola 74 (1974) Raízes (1975)e Angola 76 (1976).

A convite do músico brasileiro Sebastião da Rocha, mudou-se para Paris em 1977 para integrar o grupo Batuqui, que ambos abandonaram em 1979 para formar um duo de música “afro-brasileira” destinado a actuações em bares e cafés-concerto.

Em 1980, já como intérprete solo, gravou o LP Sentimento para a editora Chant du Monde, actuando nos primeiros anos da década nos festivais de Avignon, Lyon, Angoulême e no Africavision, no Gabão.

Integrado nos circuitos de produção musical de intérpretes das Antilhas (Molovoi, Kassav) e da África francófona (Manu Dibango), afirmou-se como um importante divulgador da música urbana africana em França.

Em 1985 regressou a Portugal, onde se tornou no mais significativo representante da música angolana. A popularidade da canção Olhos Magoados (1985) extravasou o público africano, tornando-o igualmente reconhecido pelo público português.

Até ao final do século, gravou c. de uma dezena de fonogramas, actuando regularmente em salas de concerto, festivais, em discotecas e na televisão. É a partir de Portugal que faz a gestão da sua carreira, igualmente direccionada para os mercados africano e europeu da música.

O repertório do cantor é constituído a partir de diversos géneros performativos angolanos como rebita, semba, kilapanga, kazuguta, o lamento ou as práticas expressivas do Carnaval de Luanda, cujos traços estilísticos, sobretudo rítmicos, integra num estilo musical sincrético que recorre a uma instrumentação electro-acústica e electrónica alargada (guitarra e baixo eléctricos, instrumentos de tecla) que compreende igualmente instrumentos de percussão tradicionais angolanos (como a dikanza cuja utilização constitui uma das marcas definidoras do seu estilo musical e performativo).

O seu estilo musical transporta marcas da música popular de Angola e das suas múltiplas influências culturais, mas igualmente do movimento da música popular da Costa Ocidental Africana e das Antilhas no qual participou activamente no início da década de 80 (sobretudo aquando da emergência do zouk).

O acompanhamento instrumental e arranjos do seu repertório gravado e interpretado ao vivo recebem o contributo de diversos instrumentistas africanos vivendo em Portugal como António Costa Neto (baixo eléctrico), Nanuto (António Manuel Fernandes; instrumentos de sopro), Betinho Feijó, Carlitos Semba (guitarra eléctrica), Dom Lanterna (instrumentos de tecla), entre outros.

A voz rouca e um estilo vocal ornamentado constituem traços distintivos do seu estilo interpretativo. Os seus poemas, cantados em português e kimbundu, têm um forte conteúdo político, acompanhando e reflectindo numa perspectiva crítica a realidade social de Angola.

As suas descrições, marcadas pela linguagem informal, pelo humor e pela criatividade linguística do dia-a-dia, procuram traduzir a experiência de vida e as inquietações das populações, que conhece da sua infância e juventude passadas nos musseques. É nesse contexto que, no final do século, se situam as suas personagens centrais e onde o drama da guerra implica a perda de valores e comportamentos comunitários, de união familiar, da amizade, do exercício espontâneo da crítica ou da criatividade cultural.

Discografia: (1972) Bonga 72. Morabeza Records [LP]; (1974) Angola 74. Morabeza Records [LP]; (1975) Raízes. Morabeza Records [LP]; (1976) Angola 76. Morabeza Records [LP]; (1979) Kandandu. Electromóvel [LP]; (1986) Sentimento. Chant du Monde [LP]; (1987) Angola. Sunset France/Playa Sound/Audivis; (1989) Malembe Malembe. DIS [LP]; (1989) Reflexão. DIS [LP]; (1990) Diaka. DIS; (1991) Malembe Malembe e Reflexão. DIS; (1992) Gerações. DIS; (1992) Mutamba. DIS; (1994) Fogo na Kanjica. VID; (1996) Preto e Branco. VID; (1998) Dendém de Açúcar. VID; (s.d.) Katendu. Celluloid – Melodie.

Fonte: Wikipédia